COM UMA IDEIA NA CABEÇA.
Por Beto Magno
Um simples transitar pelas ruas, por vezes surgem ideias inusitadas, ou nascem oportunidades que moldam o porvir. Numa tarde ensolarada de novembro de 2016, ao percorrer o centro de Vitória da Conquista, passando pela Rua 2 de Julho, deparei-me com uma placa de Vende-se em formato de fotograma, na Casa onde nasceu Glauber Rocha. Retornando a Salvador, percebi que, tanto o Ministério da Cultura quanto o meio Cultural de Salvador já tinham conhecimento do fato, embora os comentários giravam tão somente em torno da notícia, sem nenhuma proposta concreta, na tentativa de salvar a casa de quaisquer destinação, que não fosse a preservação do imóvel histórico de tão relevante importância. Neste ínterim, recebi um telefonema do amigo, professor e filósofo, Cassiano Santos, residente em Vitória da Conquista, abordando o tema e apresentando uma possível solução. Ele falava de um amigo seu o Artista Allan de Kard que havia manifestado o interesse em adquirir o Imóvel para preserva-lo como espaço Cultural e Memorial do Cineasta Glauber Rocha. Ele me perguntou se eu conhecia Alguém da Família do artista que porventura estivesse interessado no projeto de preservação do imóvel, diferente dos proprietários que aparentemente só estava levando em conta a questão patrimonial. Foi então que recorri a Helena Ignêz, que me esclareceu alguns fatos sobre o imóvel. O Primeiro deles, foi que dona Lúcia Rocha mãe de Glauber havia vendido sua parte no Imóvel desde os anos 80, mas que provavelmente Paloma Rocha, deveria ter grande interesse, visto que na ocasião ela enfrentava grandes dificuldades com a preservação do acervo de Glauber Rocha, visto que parte deste encontrava-se sob a guarda da Fundação Moreira Sales, parte com ela, e outra parte no Templo Glauber, na Rua Sorocaba em Botafogo, no Rio de Janeiro. Este imóvel de Botafogo, havia sido uma doação do Município, cujo prefeito na época era Saturnino Braga. No entanto, décadas sem a devida conservação o imóvel não mais reunia condições de abrigar o que quer que seja. Tendo entrado em contato com Paloma Rocha, logo percebi o seu largo interesse, e por razões por mim desconhecidas, ela aventava a possibilidade de se mudar para Vitória da Conquista para gerir o espaço em homenagem a seu Pai. Foi por estes dias que Conheci o Artista Allan de Kard, um homem singular, desprovido de ambições pessoais, um paradoxo eu diria, pois além de artista é também empresário. Pensa coletivamente sempre, se entrega ao trabalho voluntário com uma naturalidade assustadora. Um verdadeiro visionário. Ainda sob o impacto daquele primeiro encontro, tomei conhecimento do seu Projeto para o espaço, que consistia na criação do Museu Glauber e no quintal a edificação de um espaço vertical com sete pavimentos, para que ali fosse criado o Museu de Kard. O Artista patrocinou a vinda a Vitória da Conquista de Paloma Rocha para um encontro onde se trataria da negociação da Casa com os atuais proprietários, seus primos. E assim, no dia 5 de janeiro de 2017 foi realizado este encontro. Iniciada a conversação, Allan diferente do que ele pensava, que deveria haver algum nível de desprendimento por parte dos familiares, tratava-se de negócio puro e simples, acrescido de valores inerentes a importância histórica do imóvel. Daí fica fácil concluir que a referida negociação não avançaria. Frustrada esta tentativa, um dos proprietários sugeriu que se deveria aproveitar a presença de Paloma para uma reunião com o Prefeito Herzen Gusmão, recém eleito para o cargo de Prefeito Municipal. Foi então que eu por intermédio do Dr. Armênio Santos, viabilizamos uma reunião em sua casa num domingo dia 6 de janeiro. Nesta reunião estavamos: Eu, Paloma e seus 3 primos, a secretária Tina Rocha e o assessor André Ferraro. Herzen perguntou, "o que eu poderia fazer por vocês"? O interlocutor disse que, bastava que fosse efetivada um acordo do ano de 1995, com a prefeitura, que consistia na troca da Casa por um terreno de propriedade do município nas proximidades da UESB. De imediato o prefeito, dirigiu-se para a Secretária Tina Rocha e André Ferraro da comunicação e diz, providencie isso para o quanto antes. Meses depois, houve uma audiência onde estva o Prefeito Herzen, Paloma Rocha e o então Ministro da Cultura Roberto Freire, logo após o nome do presidente Michel Temer ser envolvido nos episódios da lava jato, e posterior renuncia do Ministro, o caso caiu no esquecimento, e com a pandemia, mais uma pá de terra sobre o projeto, que só foi retomada e 2023 com a efetivação da troca. E então chegamos aos dias atuais, próximo a completar 10 anos daquele 5 de janeiro de 2017, neste espaço de tempo nada foi feito para a conservação do imóvel, que agora se encontra em estado deplorável. Me permito neste instante fazer um breve comparativo. Tendo sido frustrada a tentativa do artista Allan de Kard, este transferiu seu projeto para a zona oeste da cidade e em 2018 iniciou a construção do Museu de Kard, que hoje é referência no Brasil e exterior, assim como Glauber em sua época, ignorado pelos Conquistenses, com raríssimas exceções. E eu fico a me perguntar, como um único homem pode ser mais eficaz que todos os poderes públicos nas esferas Municipal, Estadual e Federal? Que possamos refletir a cerca da história que está sendo construída nestes dias.
Beto Magno

















